Possível restrição de diesel dos EUA ameaça economia brasileira e divide Bolsa
Uma possível restrição dos Estados Unidos às exportações de diesel representa novo desafio para a economia brasileira. Embora o país seja exportador de petróleo, ainda depende de importações para atender parte relevante de seu consumo de combustíveis refinados. Após a redução das compras da Rússia, os americanos se tornaram o principal fornecedor de diesel importado pelo Brasil.
Segundo estimativas do JPMorgan, aproximadamente 25% do diesel consumido no Brasil depende atualmente de importações. Os Estados Unidos responderam por mais de 70% das importações brasileiras do combustível em agosto. A discussão sobre restrições ganhou força diante da possibilidade de o governo americano restringir temporariamente as exportações, com informações publicadas pelo Politico apontando a consideração de um veto de 90 dias. O Morgan Stanley avalia que uma proibição integral parece improvável diante dos impactos que produziria nos próprios mercados de combustíveis, mas considera possível algum tipo de restrição parcial ou temporária.
Os riscos para a economia brasileira são variados. A redução da oferta americana poderia provocar dificuldades de abastecimento, elevar os custos de transporte, pressionar setores como agronegócio, varejo e mineração. Em um cenário mais extremo, o país poderia ser obrigado a priorizar o diesel disponível para atividades consideradas estratégicas, como o escoamento da safra agrícola. Na região, o diesel corresponde a 42% do consumo de petróleo na América Latina como um todo, uma das maiores participações do mundo. Cerca de 40% do combustível utilizado na região é importado, e 60% dessas importações são provenientes dos Estados Unidos.
Os efeitos para as ações brasileiras seriam bastante diferentes conforme o setor. Na avaliação do Bradesco BBI, SLC Agrícola (SLCE3), São Martinho (SMTO3) e Jalles Machado (JALL3) aparecem entre os potenciais prejudicados por diesel mais caro. Na outra ponta estão Petrobras (PETR4), Rumo (RAIL3), distribuidoras de combustíveis e 3tentos (TTEN3), que podem encontrar compensações ou até benefícios no novo cenário.
A discussão sobre possíveis restrições americanas ocorre em momento de atenção especial aos mercados brasileiros. O UBS mantém recomendação overweight para o mercado acionário brasileiro, mesmo com a proximidade das eleições presidenciais. Para o banco, a relação entre risco e retorno segue favorável, especialmente diante dos descontos atuais da Bolsa brasileira. O Brasil é um dos poucos mercados emergentes em que as variáveis macroeconômicas costumam ter peso maior do que os fundamentos das empresas.
Segundo os estrategistas do UBS, os juros elevados são a principal razão para que as ações brasileiras negociem com desconto, apesar dos fundamentos considerados sólidos. As taxas locais subiram de forma expressiva após 2021 e permanecem acima da maioria dos mercados emergentes. Na avaliação do banco, existe uma assimetria interessante para investidores: os riscos negativos de um cenário de continuidade fiscal já estariam, em grande medida, incorporados aos preços dos ativos, enquanto os riscos de alta em caso de ajuste fiscal seriam significativos. Essa diferença entre os potenciais riscos e ganhos sustenta a manutenção da recomendação overweight para o Brasil dentro do universo de mercados emergentes.
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