Terra como lastro: entenda o papel do agro no crédito e os desafios do setor
A terra emerge como o principal ativo de lastro no agronegócio brasileiro, funcionando como garantia estrutural em operações de crédito rural em um cenário de aperto nas condições de financiamento. O tema foi discutido durante painel realizado na Suno Invest 2026, que reuniu Felipe Marques, CFO da Boa Safra (SOJA3), Jônatas Couri, diretor de Agro da Suno, e Vitor Duarte, CIO da Suno Asset, para debater o papel da terra, os desafios do crédito rural e a participação do mercado de capitais no financiamento do setor.
Segundo Felipe Marques, mais de 80% das operações de crédito ligadas ao agronegócio têm, direta ou indiretamente, a terra como lastro. Diferentemente de máquinas e equipamentos, o imóvel rural não sofre depreciação contábil pelo simples uso, mantendo sua característica de ativo de longo prazo. O valor da terra, porém, varia conforme localização, produtividade, infraestrutura, qualidade do solo, disponibilidade de água e condições do mercado.
Apesar de sua relevância como garantia, a presença de terra como lastro não elimina o risco de crédito. Em uma operação de financiamento, é necessário considerar a capacidade de pagamento do produtor, a documentação adequada do imóvel, o valor efetivo da garantia e as condições para eventual execução da garantia. O lastro funciona como proteção, mas não substitui a análise rigorosa da viabilidade da operação.
Marques destacou que o período de maior estresse no mercado de crédito pode abrir espaço para investidores com horizonte de longo prazo. "Quem tiver visão de longo prazo e souber o movimento de entrada, esse é o momento de entrar no setor", afirmou durante o painel.
Jônatas Couri enfatizou a força estrutural do agronegócio brasileiro, apoiada na profissionalização dos produtores, no avanço das tecnologias biológica, digital e orgânica, e em uma cadeia de distribuição de insumos consolidada. "O agronegócio é um ativo de longuíssimo prazo", afirmou. A presença de multinacionais, empresas parceiras e uma demanda consistente pela produção brasileira reforçam a relevância do setor para a economia.
O ambiente de juros elevados pressiona o acesso ao crédito rural e demanda soluções de financiamento. A economista Ana Paula Vescovi apontou que os juros elevados no Brasil refletem desequilíbrio fiscal, aumento da dívida pública e falta de coordenação entre políticas fiscal e monetária. O Brasil combina dívida pública em trajetória crescente com juros internacionais ainda altos e prêmio de risco elevado, limitando a capacidade de redução consistente da Selic.
Segundo dados de execução fiscal apresentados por Vescovi, a receita estaria crescendo pouco mais de 5% acima da inflação, enquanto as despesas avançariam cerca de 10% em termos reais. Essa diferença mantém a política fiscal expansionista e reduz a potência da política monetária. Quando o governo amplia gastos enquanto o Banco Central tenta conter a demanda, os efeitos das decisões de política monetária se tornam menos eficientes, e o mercado passa a exigir taxas maiores para compensar a incerteza, pressionando o crédito para empresas e famílias.
Vescovi defendeu que o país precisa iniciar ajuste fiscal com rapidez, mas combiná-lo a medidas capazes de elevar a produtividade. Ela destacou que mais de dois terços dos benefícios do sistema previdenciário estão vinculados ao salário mínimo ou abaixo dele. Como exemplo, citou a interrupção de novos ganhos reais do salário mínimo enquanto a produtividade não acompanhar esse avanço, com impacto inicial de aproximadamente 0,1% do PIB, mas que poderia representar 1% do PIB em dez anos.
A economista ressaltou, porém, que o ajuste fiscal precisa ser percebido como justo, considerando que cortes concentrados na população de menor renda tendem a perder legitimidade quando permanecem privilégios.
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