Real cai 10% no mercado futuro após reeleição de Lula; ativos brasileiros desabam
A moeda brasileira registrou forte desvalorização no mercado futuro da CME, em Chicago, na madrugada desta segunda-feira, em reação à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em segundo turno. O resultado surpreendeu o mercado financeiro, que havia posicionado maior probabilidade de vitória do senador Flávio Bolsonaro.
Às 3h38 (horário de Brasília), o contrato futuro do dólar com vencimento em novembro registrava queda de 10,09%, levando o dólar implícito para esta segunda a R$ 5,56. O contrato para dezembro apresentava queda de 9,79%. Com 99,78% da apuração, Lula continha 51,76% dos votos válidos, ante 48,24% de Flávio Bolsonaro.
Os ativos brasileiros negociados no exterior também sofreram pressão significativa. O EWZ, principal fundo negociado em Nova York que replica o índice MSCI Brasil, desabava 26,04% no pré-market, a US$ 31,30, às 5h34 (horário de Brasília). Entre as principais companhias brasileiras com ADRs (recibos de depósito americano) negociados em Nova York, a Petrobras tinha queda de 19,53% a 19,72%, a Vale registrava queda de 5,24%, enquanto o Itaú desabava 25,54%. Todas as 20 ações e ADRs de empresas brasileiras com negócios no pregão noturno de Nova York operavam em queda na madrugada desta segunda-feira.
Felix Balassiano, head de multimercados do ASA, avalia que o resultado contraria o cenário base dos analistas e entrega a maior surpresa da eleição. "O mercado não estava posicionado para este desfecho. Diferente dos cenários de vitória de Bolsonaro, onde quanto maior a vantagem, melhor andariam os ativos, amanhã devemos passar por um ajuste severo de preços na abertura. Esperamos forte volatilidade, com pressão de queda na bolsa, depreciação do real e abertura das curvas de juros, até que o novo governo reforce o compromisso com a responsabilidade fiscal."
Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, projeta volatilidade sustentada no câmbio. "A vitória do presidente Lula não era o nosso cenário base. Trabalhávamos com um leve favoritismo de Flávio Bolsonaro, e o mercado via a possibilidade de mudança de governo e de uma agenda mais liberal. Essa expectativa se traduziu na melhora da Bolsa, principalmente após o resultado do primeiro turno", explica. Sung aponta que é provável que o mercado faça uma correção nesta semana, gerando volatilidade bastante grande no câmbio e na curva de juros futura, com possível estresse no mercado de títulos públicos. O economista estima que o câmbio deve ficar em torno de R$ 5,40 de forma sustentada em 2027.
Leonardo Mendes, economista e consultor financeiro da Manchester Investimentos, aponta que o resultado da eleição representou uma mudança importante na percepção de risco do mercado brasileiro. Sung acrescenta que "a segunda-feira pode ser bastante volátil, porque haverá uma correção de rota e de ânimo do mercado".
A vitória de Lula marcou um momento histórico. Com a confirmação do resultado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o petista conquistou um inédito quarto mandato na Presidência da República, em um resultado que marcou a primeira vez que um candidato que ficou atrás no primeiro turno se sagrou vencedor da disputa pelo Palácio do Planalto. Lula derrotou o senador Flávio Bolsonaro por 51,79% a 48,21%, após uma eleição conturbada e marcada por um adiamento de última hora no fechamento das urnas devido a problemas no transporte público. O petista superou 64 milhões de votos, batendo recorde histórico em eleição presidencial e superando a própria marca de 2022, quando recebeu 60,3 milhões de votos no segundo turno contra Jair Bolsonaro.
A reeleição de Lula também repercutiu na arena internacional. A agência Associated Press apresentou Lula como um "crítico de Trump", enquanto a CNN destacou que o petista derrotou um "aliado de Trump" e manteve o Brasil à esquerda em uma região que vem se deslocando para a direita. O Wall Street Journal tratou o resultado como uma surpresa que prolonga uma das carreiras políticas mais longas da América Latina. Para o New York Times, o resultado é um recado ao movimento conservador que vem conquistando presidências na América Latina, celebrado por Trump. A vitória de Lula interrompeu uma sequência de sete vitórias seguidas da direita na região nos últimos 18 meses. O Financial Times, por sua vez, afirmou que a vitória do petista é um golpe na ambição de Trump de ampliar a influência dos EUA na região.
O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Albert Ramdin, parabenizou os brasileiros pela participação no segundo turno das eleições e destacou o compromisso dos eleitores com a democracia, afirmando que a organização continuará trabalhando com o governo brasileiro. A missão de observação eleitoral da OEA também apresentará um relatório preliminar sobre a votação.
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