Lula 4 e a conta que fica: dívida, juros altos por mais tempo e o custo das promessas
A reeleição de Lula para um quarto mandato chega com a conta pública num ponto mais delicado do que em qualquer posse anterior dele. A reação desta segunda-feira, com o fundo de ações brasileiras EWZ caindo 25% no pré-mercado de Nova York, mostra que o investidor está precificando um risco concreto: o de o governo seguir gastando mais do que arrecada, com a dívida crescendo e os juros altos por mais tempo. Esta análise reúne os números que sustentam essa preocupação, o que ainda não dá para medir, e o que o governo diz.
A dívida já cresce, e o mercado projeta mais
A dívida bruta do governo geral, a medida mais usada para comparar países, era de 75,48% do PIB em janeiro de 2025. Em agosto de 2026, último dado publicado pelo Banco Central, estava em 82,87%. Em pouco mais de um ano e meio, subiu 7,4 pontos percentuais.
As projeções do boletim Focus, a pesquisa semanal do Banco Central com economistas do mercado, apontam para onde essa curva vai. Os números abaixo são da edição de 23 de outubro, ou seja, foram coletados antes do resultado da eleição.
| Indicador | 2026 | 2027 | 2028 | 2030 |
|---|---|---|---|---|
| Dívida bruta, % do PIB | 83,5% | 87,2% | 90,1% | 95,0% |
| Resultado primário, % do PIB | -0,48% | -0,30% | 0,00% | 0,24% |
| Selic no fim do ano | 13,25% | 11,75% | 10,00% | 10,00% |
| IPCA no ano | 5,19% | 4,34% | 3,75% | 3,50% |
O resultado primário é a diferença entre o que o governo arrecada e o que gasta, sem contar os juros da dívida. Pela mediana do Focus, ele só deixa de ser negativo em 2028. Enquanto for negativo, o governo precisa tomar emprestado até para pagar despesas correntes, e a dívida cresce por conta própria. A mesma pesquisa projeta a dívida perto de 100% do PIB em 2035.
As promessas e o custo delas
A Instituição Fiscal Independente, órgão ligado ao Senado, estimou em R$ 298,4 bilhões o volume de recursos mobilizado por benefícios e políticas do governo ao longo de 2026. O número precisa ser lido com cuidado: parte dele é crédito subsidiado e empréstimo, e não gasto direto do Tesouro. Ainda assim, é a medida mais citada do tamanho do pacote.
Para o novo mandato, as propostas de campanha com custo estimado publicamente são a tarifa zero no transporte público, que custaria até R$ 12 bilhões por ano pela conta do governo e R$ 20,8 bilhões pela estimativa da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos, e a ampliação do Pé-de-Meia para universitários de baixa renda, estimada em R$ 4,6 bilhões por ano. Um levantamento publicado pelo InfoMoney soma em R$ 74,6 bilhões o impacto fiscal do conjunto de medidas econômicas e sociais prometidas, contando despesas e renúncias de receita.
Já o fim da escala de trabalho 6x1 deixou de ser promessa: o Congresso promulgou a emenda constitucional em 16 de outubro, com a jornada caindo de 44 para 42 horas e depois para 40 horas a partir de dezembro de 2027. A mudança não pesa diretamente no Orçamento, mas eleva o custo de folha das empresas.
O ponto central não é uma promessa isolada, e sim a soma delas num Orçamento que já fecha no vermelho. O presidente nega que as medidas representem risco fiscal.
Juros altos por mais tempo
A Selic está em 13,75% ao ano desde 17 de setembro. Ela chegou a 15% em junho de 2025, ficou nesse nível até março de 2026, e desde então vem sendo cortada. O Focus de 23 de outubro esperava 13,25% no fim deste ano e 11,75% no fim de 2027.
Esse caminho foi traçado antes da eleição. Ele supõe que a inflação continue cedendo. Se o real se desvalorizar de forma duradoura, os produtos importados e tudo o que tem preço em dólar ficam mais caros, e a expectativa de inflação sobe. Nesse cenário, o Banco Central tem menos espaço para cortar, e a Selic tende a ficar alta por mais tempo do que o mercado projetava na sexta-feira. Juro alto encarece o crédito para empresas e famílias e aumenta o custo da própria dívida pública, que é o que fecha o ciclo da preocupação fiscal.
Brasileiros mudando o domicílio fiscal
Um dado já mostrava, antes da eleição, que mais brasileiros estão transferindo a residência fiscal para fora do país. Segundo o painel de Declarações de Saída Definitiva da Receita Federal, citado pelo portal Paraíba Business em setembro, o número de declarações passou de 25.806 em 2021 para 46.632 em 2026, um aumento de cerca de 81%, e o número de 2026 pode ainda estar incompleto. Estados Unidos, Portugal e Canadá são os principais destinos.
Não há como saber ainda se a eleição vai acelerar esse movimento. A declaração de saída costuma ser entregue até fevereiro do ano seguinte à mudança, então o efeito, se houver, só aparece nos dados de 2027.
Indústrias deixando o país
Esse é o risco mais citado e, hoje, o menos mensurável. Decisões de onde instalar ou ampliar uma fábrica levam meses ou anos, e não existe dado público que meça uma saída de indústrias no dia seguinte a uma eleição. Os indicadores que vão mostrar se isso acontece são o investimento direto no país, divulgado mensalmente pelo Banco Central, a formação bruta de capital fixo, nas contas do IBGE, e os anúncios de investimento das próprias empresas. O Pense Mercado vai acompanhar esses números nos próximos meses em vez de antecipá-los.
O que pode mudar o quadro
A queda de hoje precifica o pior cenário de uma vez, e o quadro ainda pode melhorar. O que vai definir a reação do mercado nos próximos meses é a primeira proposta de Orçamento do novo mandato, a eventual revisão do arcabouço fiscal e o nome escolhido para o Ministério da Fazenda. Um sinal crível de controle de gastos nesses três pontos reduziria boa parte do risco que está sendo cobrado agora.
Fontes: dívida bruta do governo geral e Selic, Banco Central do Brasil (séries 13762 e 432 do SGS); projeções, boletim Focus de 23/10/2026; custo das medidas de 2026, Instituição Fiscal Independente; custo das propostas de campanha e fim da escala 6x1, InfoMoney e Bloomberg Línea; declarações de saída definitiva, Receita Federal via Paraíba Business; posição do presidente, Mixvale.
Foto da capa: Ricardo Stuckert/Palácio do Planalto (CC BY 2.0). Montagem: Pense Mercado.
Análise do Pense Mercado, escrita com apoio de inteligência artificial a partir dos dados das fontes acima, com os números conferidos na fonte original, sob as regras da nossa política editorial. Opiniões e cenários são do Pense Mercado. Não constitui recomendação de investimento.