A batalha bilionária pela Warner Bros. Discovery: o que você precisa saber
A indústria de streaming e entretenimento enfrentou no início deste ano um dos maiores negócios de sua história. Não se trata apenas de um acordo histórico em escala, mas também prevê-se que irá desorganizar Hollywood e o negócio de mídia conforme o conhecemos.
Tudo começou quando a Warner Bros. Discovery, após anos enfrentando dificuldades financeiras pela pesada dívida de bilhões de dólares, queda na audiência de televisão por cabo e concorrência feroz de plataformas de streaming, passou a considerar mudanças estratégicas significativas, incluindo a venda de seus ativos de entretenimento para um de seus rivais. Em outubro, a empresa revelou que estava explorando uma possível venda após receber interesse não solicitado de vários atores importantes do setor.
O processo de licitação rapidamente se tornou competitivo, com Paramount e Comcast emergindo como contendores sérios, sendo que Paramount era inicialmente vista como a favorita. Entretanto, o conselho da Warner Bros. Discovery determinou que a oferta do gigante de streaming Netflix era a mais atrativa: 82,7 bilhões de dólares apenas pelos ativos de filme, televisão e streaming da Warner.
Em seguida iniciou-se uma guerra de lances. A Paramount acreditava que sua oferta de aproximadamente 108 bilhões de dólares por todos os ativos da Warner era superior à proposta da Netflix que se concentrava apenas nos estúdios e streaming. Para melhorar seu negócio, a Netflix modificou seu acordo em janeiro para uma oferta totalmente em dinheiro de 27,75 dólares por ação da Warner Bros. Discovery, tranquilizando ainda mais os investidores e abrindo caminho para o avanço do negócio.
A Paramount persistiu em suas tentativas de adquirir a WBD. Contudo, o conselho da Warner repetidamente rejeitou suas ofertas, citando preocupações com a pesada dívida da Paramount e o risco aumentado associado à sua proposta, incluindo preocupação com o conjunto de investidores financiando a oferta da Paramount, que inclui fundos soberanos da Arábia Saudita, Qatar e Abu Dhabi. O conselho observou que a oferta da Paramount teria deixado a empresa combinada sobrecarregada com 87 bilhões de dólares em dívida, um risco que se recusavam a correr naquele momento.
Em janeiro, a Paramount entrou com uma ação judicial buscando mais informações sobre o negócio com Netflix. Um mês depois, a empresa procurou melhorar seu negócio anunciando que ofereceria uma taxa "ticking fee" de 0,25 dólar por ação aos acionistas da WBD para cada trimestre que o negócio não se fechasse até 31 de dezembro de 2026. Também afirmou que pagaria a taxa de rescisão de 2,8 bilhões de dólares se a Warner desistisse de seu negócio com a Netflix.
Em uma tentativa final de garantir um negócio, a Paramount aumentou sua oferta para 31 dólares por ação em fevereiro. Isso levou o conselho da WBD a prolongar as discussões com a Paramount sobre um possível acordo, considerando-o como uma oferta superior. A Netflix recusou aumentar sua oferta e se retirou das negociações. "A transação que negociamos teria criado valor para os acionistas com um caminho claro para aprovação regulatória", disseram os co-CEOs da Netflix Ted Sarandos e Greg Peters em comunicado de 26 de fevereiro. "Porém, sempre fomos disciplinados, e ao preço necessário para igualar a oferta mais recente da Paramount Skydance, o negócio não é mais financeiramente atrativo, portanto estamos recusando igualar a oferta da Paramount Skydance."
Aém dos bilhões que a Paramount já possui em dívida, a empresa também deve assumir aproximadamente 33 bilhões de dólares em dívida que a Warner Bros. Discovery possui sob o acordo. O negócio será apoiado por um compromisso de dívida de 54 bilhões de dólares do Bank of America, Merrill Lynch, Citi e Apollo Global Management, bem como 45,7 bilhões de dólares em patrimônio de Larry Ellison.
O acordo foi aprovado pelo Departamento de Justiça dos EUA em junho. Porém, um juiz federal pausou recentemente o negócio após uma ação judicial ser ajuizada em 13 de julho por uma coligação de 12 procuradores-gerais estaduais.
Além da assunção de dívida substancial que representa um fardo financeiro significativo, a Paramount enfrenta vários outros obstáculos em seu negócio com a WBD que podem impactar o sucesso da transação. Ellison alertou sobre reduções significativas de pessoal esperadas no futuro próximo. Já houve preocupações generalizadas entre críticos sobre possíveis perdas de empregos e salários menores.
Ellison também é uma figura controversa no setor, e sua propriedade da CBS News foi vista como simpática e apoiadora da administração de Donald Trump, do qual seu pai, Larry Ellison, é um grande doador. Sob a propriedade de Ellison da Paramount, reportagens críticas à administração foram arquivadas ou receberam escrutínio aumentado de Ellison ou de sua chefe nomeada da CBS News, a provocadora conservadora Bari Weiss.
Isso gerou preocupações entre alguns funcionários da CNN, de propriedade da Warner. Trump pessoalmente buscou concessões de divisões de notícias críticas dele, incluindo um acordo de 16 milhões de dólares da CBS, antes que sua FCC aprovasse a aquisição de Ellison da Paramount. Antes de a Netflix desistir do negócio, Trump pressionou a empresa para demitir a ex-funcionária do gabinete do presidente Biden Susan Rice de seu conselho. Ele afirmou publicamente suas intenções de trazer a CNN sob controle com novos proprietários.
O escrutínio regulatório é outro obstáculo. Uma fusão de escala tão grande atraiu atenção de legisladores. Por exemplo, o procurador-geral da Califórnia Rob Bonta afirmou em comunicado de 26 de fevereiro que "estes dois gigantes de Hollywood não passaram por escrutínio regulatório — o Departamento de Justiça da Califórnia tem uma investigação aberta e pretendemos ser vigorosos em nossa análise".
Um dia antes de a Netflix desistir, foi revelado que uma coligação de 11 procuradores-gerais estaduais exortou o Departamento de Justiça dos EUA a revisar a fusão sob preocupações de que vai sufocar a concorrência e aumentar os preços das assinaturas. Isso ocorre meses depois que os senadores dos EUA Elizabeth Warren, Bernie Sanders e Richard Blumenthal manifestaram suas preocupações à Divisão Antitruste do Departamento de Justiça, advertindo que uma fusão tão massiva poderia ter consequências sérias para consumidores e a indústria em geral. Os senadores argumentam que a fusão poderia conferir ao novo gigante de mídia poder excessivo no mercado, permitindo-o aumentar preços para consumidores e sufocar a concorrência.
Apesar da aprovação do DOJ em junho, uma coligação de 12 procuradores-gerais estaduais entrou com uma ação judicial em 13 de julho para bloquear a fusão. A ação argumenta que reduziria a concorrência e prejudicaria cinemas, distribuidoras de cabo e espectadores. A coligação é liderada por Bonta, com Arizona, Colorado, Connecticut, Massachusetts, Minnesota, Nevada, New Jersey, Novo México, Nova York, Oregon e Washington também se juntando.
Em resposta, a juíza federal Araceli Martínez-Olguín emitiu uma pausa de 14 dias.
A Paramount inicialmente visava finalizar sua aquisição da WBD já em julho. Contudo, a transação foi temporariamente pausada até 3 de agosto, com uma audiência marcada para avaliar se o congelamento se estenderá além disso.
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